Em 22 de outubro, Joseph Briggs, economista do Goldman Sachs, publicou uma nota sobre a IA e o emprego nos Estados Unidos, noticiada pela Fortune. A conta parte da previsão do banco de que a IA acabe elevando a produtividade em 15%. Nesse cenário, até 9% dos trabalhadores poderiam ser deslocados durante a transição. Num podcast do banco gravado em junho, Briggs traduziu o número: seriam 15 milhões de trabalhadores, ao longo de um período de 10 anos.
É um número grande, e merece ser levado a sério. Mas ele costuma virar manchete de um jeito que o próprio estudo não sustenta. Vale separar o mito da evidência.
Mito: “a IA vai acabar com todos os empregos”
Evidência: o estudo fala em deslocamento, não em fim do trabalho. No podcast, Briggs disse esperar que sejam criados empregos mais do que suficientes para reabsorver os trabalhadores deslocados. Ele lembra que, nos últimos 80 anos, cerca de 85% do crescimento do emprego veio de novas ocupações criadas pela tecnologia, e que o mercado americano cria cerca de 30 milhões de vagas por ano e destrói 29 milhões. Para ele, uma aceleração de apenas 5% no ritmo de criação de vagas bastaria para reabsorver quem perder o posto.
O ritmo também importa. Mesmo com 9% dos trabalhadores deslocados, Briggs espera que a alta do desemprego em qualquer ano seja menor que um ponto percentual. A nota de outubro mede perdas brutas de emprego, e não desemprego, porque parte dos deslocados encontra trabalho rapidamente.
Mito: “se a transição é administrável, não há com o que se preocupar”
Evidência: o achado mais importante da nota é sobre o momento. Olhando décadas de dados, Briggs conclui que a disrupção causada pela automação é limitada quando a economia está saudável, mas acelera nas desacelerações. A fatia de americanos em empregos de rotina ficou estável nas expansões e caiu com força nas recessões. Por isso, uma desaceleração da economia tenderia a acelerar a automação e as perdas de emprego ligadas à IA.
O que já aparece nos dados
Por enquanto, o efeito é estreito. Em junho, Briggs estimava que a IA já tirava de 10 mil a 15 mil vagas por mês do crescimento do emprego, somando setores como tecnologia, consultoria de gestão e design gráfico. Na nota de outubro, o emprego nos setores mais expostos cresceu cerca de 10 mil vagas abaixo da tendência nos últimos três meses, perda compensada em boa parte pelas contratações na construção ligada à IA. E só 23% dos estabelecimentos americanos já usam IA nos fluxos de trabalho regulares.
A estimativa vem subindo. Em agosto de 2025, Briggs e a economista Sarah Dong calculavam que a IA poderia deslocar de 6% a 7% da força de trabalho, com a mesma hipótese de produtividade. Projeções mudam, e é bom acompanhá-las com essa humildade.
O que defendemos
Se a disrupção é pequena com a economia saudável e cresce na recessão, a conclusão é direta: mercado saudável e divisão dos ganhos andam juntos, não são escolhas opostas. Na prática:
- Crescimento e contas que fecham: uma economia que cresce, com juros mais baixos e contas críveis, é a melhor rede de proteção contra uma transição brusca. Recessão é justamente quando o choque acelera.
- Transição: formação, requalificação e crédito para quem precisar mudar de função ou empreender, de preferência antes da mudança chegar.
- Renda: transferências bem avaliadas para atravessar o período entre um emprego e outro.
- Participação nos lucros: quem trabalha na empresa que ganha produtividade com IA deve poder ganhar junto.
Esses caminhos estão no manifesto do movimento. Escrevemos também sobre o tema em Microsoft e IA: quem fica com os ganhos? e em IA: os salários mudam antes do emprego.
A IA não vai acabar com o trabalho, mas vai mudá-lo de lugar. Com a economia crescendo e o ganho dividido, a transição é administrável.
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