No domingo, 1º de novembro, a Folha noticiou que uma proposta de Lara Resende para limitar a Selic entrou no radar de Lula e assustou o mercado. Horas depois, o jornal publicou a resposta do governo: tabelamento de juros não está na mesa de Lula, diz o ministro da Fazenda. A discussão merece ser levada a sério, porque parte dela está certa.
André Lara Resende, um dos formuladores dos planos Cruzado e Real, propõe que o Banco Central reduza a Selic a cerca de 7,5% ao ano em 12 meses e depois a mantenha num intervalo permanente entre 3% e 5,5% ao ano. O piso seria a meta de inflação; o teto, o crescimento nominal potencial da economia. A proposta também cria um Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN), que definiria metas integradas para juros, inflação e contas públicas, com o Banco Central na gestão do dia a dia.
O que ele acerta: a conta do juro contra o crescimento
A dívida pública é medida em relação ao tamanho da economia (dívida/PIB). Dois números mandam nessa razão: o juro que o governo paga sobre a dívida e o ritmo em que o PIB cresce, ambos em termos nominais. Se o juro é maior que o crescimento, a dívida cresce mais rápido que a economia, mesmo que o governo não gaste um real a mais do que arrecada fora os juros. Para a razão parar de subir, é preciso um superávit primário que cubra a diferença. Economistas chamam isso de dinâmica "r maior que g".
É esse o centro do argumento de Lara Resende. Pelos números apresentados por ele, o custo médio da dívida pública chegou a 12,68% ao ano em junho de 2026, sobre uma dívida bruta de R$ 10,9 trilhões, ou 82,5% do PIB. Com o custo da dívida perto de 13% e o PIB nominal crescendo cerca de 7%, ele calcula que a dívida/PIB tende a crescer cerca de 5,7% ao ano. A conclusão dele: com juros tão acima do crescimento, nenhum corte de gastos razoável estabiliza a dívida sozinho.
A aritmética está certa, e ela vale para qualquer país. Juro alto por muito tempo encarece a dívida, o crédito das famílias e o investimento das empresas. O próprio Lara Resende admite que o Estado gasta mal; a divergência dele é sobre a ordem das prioridades.
Onde discordamos: preço por decreto
O juro é o preço do dinheiro no tempo. Ele é alto no Brasil, em boa parte, porque quem empresta ao governo cobra pelo risco: risco de inflação, de mudança de regra, de a dívida não fechar. Um teto por decreto não apaga esse risco. Se a taxa fixada ficar abaixo do que poupadores e investidores aceitam, eles procuram outros destinos, como o dólar. O real se desvaloriza, e a inflação sobe pelos importados e pelos combustíveis. A própria proposta reconhece esse perigo: o principal risco apontado por Lara Resende é o câmbio, e o plano prevê usar as reservas internacionais para amortecer a pressão. No debate da proposta no CEBRI, especialistas questionaram se as reservas bastariam contra uma corrida cambial.
O Brasil já tentou congelar preços por decreto, e a lição ficou: quando o preço anunciado não corresponde ao custo real, a conta aparece em outro lugar. Com o juro, ela apareceria no câmbio e na inflação, que pesam mais no bolso de quem tem menos.
Como o juro cai e fica baixo
O juro cai de forma duradoura quando o risco cai. Isso depende de três coisas que não se decretam, mas se constroem:
- Gasto de qualidade: rever subsídios e despesas que não entregam resultado, para que cada real gasto tenha retorno visível.
- Regra crível: metas fiscais previsíveis, cumpridas ao longo do tempo, reduzem o prêmio que o mercado cobra para financiar o governo.
- Produtividade: se o PIB cresce mais, o "g" da conta sobe. Tecnologia, educação e investimento são a forma mais saudável de vencer o "r".
Coordenar melhor a política fiscal e a monetária é um debate legítimo, e a proposta tem méritos ao colocar o custo dos juros no centro. Mas o caminho para juros baixos passa por ganhar confiança, não por fixar o preço. E o nosso critério continua o mesmo para qualquer governo: mais dívida, só com evidência de que ela é sustentável. Escrevemos mais sobre isso em dívida bruta e juros e em O recado do mercado não é de partido. É de conta.
Lara Resende tem razão sobre a conta: juro acima do crescimento faz a dívida crescer sozinha. Mas juro baixo e duradouro se conquista com confiança, não por decreto.
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