Perguntas difíceis
As objeções mais duras, respondidas com honestidade.
Quando não sabemos, dizemos que não sabemos. Todo dado tem link para a fonte.
Quem paga a conta?
Resposta honesta: hoje, qualquer transferência é paga com impostos, corte de outros gastos ou dívida. Não existe almoço grátis, nem com IA.
O que muda num mundo mais automatizado é a base: se a produtividade crescer muito, cresce também a renda que pode ser tributada e o retorno do capital que um fundo pode receber. Mas isso precisa aparecer nos dados antes de virar promessa.
A própria lei brasileira já amarra as duas coisas. A Lei 10.835/2004 criou a renda básica de cidadania para implantação em etapas, priorizando os mais necessitados, e manda que o valor respeite a Lei de Responsabilidade Fiscal. A Lei 14.601/2023 diz que o Bolsa Família é uma etapa da universalização dessa renda básica.
Por isso defendemos pilotos com avaliação séria. A Finlândia fez isso: pagou 560 euros por mês a 2.000 desempregados sorteados, em 2017 e 2018, com orçamento de 20 milhões de euros, e publicou os resultados.
Fontes: Lei 10.835/2004 · Lei 14.601/2023 · Kela, experimento finlandês
E a dívida pública?
Nossa posição é simples: mais dívida só com evidência de que ela é sustentável. Não presumimos que a IA vai gerar deflação, derrubar juros e "apagar" a dívida. Pode acontecer, mas pode não acontecer, e uma política responsável não aposta tudo num único cenário.
A regra fiscal em vigor, a Lei Complementar 200/2023, já diz que a política fiscal deve manter a dívida em níveis sustentáveis e mirar a estabilização da relação dívida bruta/PIB.
E o ponto de partida não é confortável. O Relatório de Acompanhamento Fiscal nº 116 da Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado, de setembro de 2026, projeta a dívida bruta em 82,5% do PIB em 2026 e 86,4% em 2027, com juros nominais líquidos de 8,6% do PIB em 2026. Com juros assim, cada real a mais de dívida precisa de justificativa forte.
Na prática: qualquer proposta nossa vem com custo, fonte de financiamento e cenário pessimista ao lado do otimista.
Fontes: LC 200/2023 (arcabouço fiscal) · IFI, RAF nº 116 (set/2026), tabela de projeções · consultado em 26/10/2026
E os empregos?
É a pergunta mais importante, e ninguém tem a resposta completa. O que se sabe:
- Uma análise do FMI (2024) estima que quase 40% do emprego global está exposto à IA. Nas economias avançadas, cerca de 60%; nos emergentes, 40%. Em cerca de metade dos casos expostos, a IA tende a complementar o trabalho e aumentar a produtividade; na outra metade, pode reduzir demanda, salários e contratações.
- O mesmo texto diz que, na maioria dos cenários, a IA tende a piorar a desigualdade, e recomenda redes de proteção amplas e requalificação.
É exatamente por isso que existimos: para que o ganho de produtividade não fique só com quem já tem capital. E a experiência finlandesa traz evidência útil, com limites: os participantes já estavam desempregados, e os efeitos sobre o emprego foram pequenos. Quem recebeu relatou mais bem-estar e mais segurança financeira. Os próprios pesquisadores avisam que a pesquisa de bem-estar teve baixa taxa de resposta, então essa parte deve ser lida com cautela.
Fontes: FMI, blog de K. Georgieva (2024) · Kela, resultados do experimento · Kangas & Ylikännö (2023), taxa de resposta da pesquisa
Vocês são de esquerda ou de direita?
Nenhuma das torcidas. Defendemos mercado livre (o que agrada parte da direita) e proteção social ampla (o que agrada parte da esquerda), com responsabilidade fiscal (o que deveria agradar todo mundo). Não apoiamos nem fazemos oposição automática a governo nenhum: avaliamos políticas, uma por uma, pelas evidências.
Fontes: Manifesto
E se a abundância da IA nunca chegar?
Então as políticas se ajustam. O manifesto é explícito: nenhuma previsão tecnológica deve estar acima das evidências. Se o ganho de produtividade for lento, pilotos pequenos e avaliados custam pouco e ensinam muito. Se for rápido, já teremos instituições testadas para distribuir o ganho. As duas apostas são melhores do que não se preparar.
Fontes: Manifesto, ponto 7
Por que falar tanto em concorrência?
Porque tecnologia presa em monopólio protegido não é abundância, é escassez com outro dono. Se poucas empresas controlarem a IA e conseguirem proteção política contra concorrentes, os preços não caem e os ganhos não se espalham. No Brasil, o órgão que tem a missão de zelar pela livre concorrência é o Cade, e queremos que ele tenha capacidade técnica para os mercados digitais.
Fontes: Cade, institucional
Isso é socialismo?
Não. Socialismo, no sentido tradicional, quer abolir a propriedade privada dos meios de produção ou trocar o mercado por planejamento central. Nós queremos o contrário: mais concorrência, mais empreendedorismo, menos privilégio.
A ideia de "participação nos lucros" funciona dentro do mercado: um fundo compra ações e outros ativos como qualquer investidor e distribui ou reinveste o retorno. Dois exemplos reais:
Nenhum dos dois estatizou empresas. Ambos viraram sócios minoritários do mercado. Isso não quer dizer que dê para copiar: os dois nasceram de receita de petróleo, e o Brasil teria que pensar de onde viria o capital inicial e como blindar a governança.
Fontes: Alaska, comunicado do PFD 2026 · Alaska Permanent Fund Corporation · NBIM (Noruega), valor do fundo · NBIM, relatório anual 2025 · consultado em 26/10/2026